terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PREFÁCIO DE "O REGRESSO"

Os elementos do universal


Margarete Edul Prado Lopes*

Passei a maior parte da minha vida, quero dizer a meninice, mocidade e parte da vida adulta, profundamente imersa nas vidas de indivíduos extraordinários. Sim, tive sarampo na 4ª série do ensino fundamental e, ao ficar quase um mês longe da escola, descobri Machado de Assis na estante da sala e li Dom Casmurro antes mesmo de me apaixonar pelas narrativas de Júlio Verne e Monteiro Lobato, cujas obras fui devorando pouco a pouco, depois de ler Machado. Portanto, Capitu povoava meus sonhos desde a mais tenra idade e era meu modelo de mulher. Entretanto, nos últimos vinte anos, tenho me dedicado a explorar autoras (es) novas (os) – é hábito meu valorizar o feminino plural antes do masculino plural, como forma de protesto há séculos de machismo – especialmente a escrita de mulheres no Acre, sobre as quais já publiquei dois livros e fiz delas o tema de minha tese de doutorado.

No entanto, não se pode ignorar por completo a escrita de autoria masculina e passar ao largo, pois esta vida é um emaranhado de relações de gênero, e homens e mulheres vivem imbricados. Foi então uma grata e edificante surpresa receber o convite de Sergio Santos para fazer este prefácio e abri uma exceção, pois geralmente só faço comentários e críticas literárias de livros de autoria feminina.

Não conheço a vida pessoal de Sergio Santos, nem sua família, sei que é um mineiro que tem alma de acreano e entende muito de Amazônia e sua cultura, crenças, costumes. Conheci o aluno brilhante que ele foi, quando fazia o Curso de Letras, como também foi nosso aluno no Mestrado. Conheço o excelente professor de Língua Portuguesa e Literatura que ele é, trabalhando conosco na Universidade Federal do Acre. Há tempos conheço o contista maravilhoso que tem sido Sergio Santos, com narrativas premiadas, em Rio Branco, pela Fundação Garibaldi Brasil. Desde os tempos de aluno de Letras e do Mestrado, ele já tinha o costume de me dar os seus contos para ler e corrigir. Gesto que muito me lisonjeava e que me dava muito prazer realizar, visto que ler é o maior dos meus vícios.

Foi então que neste fim de 2010, Sergio me surpreende grandemente ao me apresentar seu primeiro romance para prefaciar, pois já tinha garantido a publicação com a Lei de Incentivo a Cultura. Ao começar a ler, fui desconfiando que não era o primeiro romance dele, devido à maturidade da escrita e familiaridade com a ficção que ele demonstra, ao escrever com tanta habilidade sobre os intricados melindres do coração humano. Conversando com ele, soube que se trata do terceiro ou quarto romance, salvo engano, os outros inéditos aguardam publicação. E, conforme fui “devorando” as páginas, fui percebendo nitidamente que Sergio Santos veio para ficar, que ele é realmente talentoso, original, criativo, forte, denso, carismático e sua escrita ainda vai produzir surpresas maiores.

Logo nas primeiras páginas deste interessante e intrigante romance de Sergio Santos, dividido em livros, portanto, no Livro 1, que trata da história melancólica e pungente de Luís, lembrei do trecho de uma carta de Hélio Pellegrino para Fernando Sabino, autor do consagrado Encontro Marcado, dizendo:

O homem, quando é jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.

Assim sentimos que são descritos os personagens deste romance, Luís tão introspectivo, homem amargurado e desiludido desde rapazinho, com o amor e com as mulheres. Luís sai de casa tentando ganhar o mundo, fugir da dor, esquecer a desilusão. Sua irmã Lorena, formada em Direito, também passa a existência tentando ganhar o mundo, ou a ilusão de ter superado os amores da juventude, mãe solteira valente e vitoriosa, que sabe tomar todas as decisões de sua vida. Mas ninguém escapa deste encontro com o Outro, estamos aqui nesta vida, constantemente nos encontrando com o Outro e, mais que tudo, nós temos que saber lidar com o Outro, conviver com o diferente e aceitar as limitações de cada um. O romance de Sergio Santos trata exatamente disto, do encontro com o Outro, assim mesmo com este “O” maiúsculo, que cada um de nós tem outra pessoa com a qual lidamos e somos o Outro do Outro.

Sergio sabe como ninguém sintetizar o pensamento de suas personagens, aliás, descrever a mente das pessoas é uma coisa muito sedutora, é penetrar no mundo alheio, pois cada ente abriga dentro de si os ingredientes fundamentais da vida. Suas personagens são seres humanos como qualquer um de nós, entidades que poderiam existir no mundo natural, têm determinadas aparências e experimentam certos sentimentos, desejos e necessidades. São pessoas que mantêm todo tipo de relações umas com as outras, relações de pais e filhos, entre irmãos, de amizade, relações de amores hetero e homossexuais – seres que se desejam, temem-se, procuram se comunicar e se frustram, sofrem, choram, quando tal comunicação não é eficaz.

O cenário do romance é o Acre, mas poderia ser em qualquer Estado do Brasil, uma vez que os elementos da história e suas criaturas são universais como sempre se exige da boa literatura, que permanece através dos tempos.

Vale ainda ressaltar que esta obra é uma novidade em romance aqui no Acre, pois a maioria gritante dos romances publicados em terras acreanas ocorrem na floresta, retratam seringais e a vida nos tempos gloriosos ou não do extrativismo. No entanto, o romance de Sergio Santos é uma exceção a esta regra, é uma narrativa urbana, as personagens circulam entre Rio Branco e Sena Madureira, os conflitos se passam na cidade. O filho mais velho de familiar nuclear burguesa bem resolvida aceita emprego no interior (Sena Madureira), para esquecer uma grande dor, e transcorrem muitos anos sem ter contato algum com sua família. Ele retorna para Rio Branco quando sua irmã Lorena telefona para lhe dizer que a mãe deles está muito doente e sem muito tempo de vida. A narrativa transita por cada personagem, que em seu tempo dominam a cena, mudando a cada livro de foco narrativo. Começando por Luís, prosseguindo pelas mentes de cada um dos seus irmãos, cada história é narrada do ponto de vista de quem protagoniza essa parte do enredo. Essa construção interessante de revezamento de foco narrativo é uma característica dos tempos pós-modernos, donde não temos personagens sem destaque, visto que cada um tem sua vez de protagonista.

Os livros que formam o romance formam um todo entre si e são independentes, podendo ser lidos em separado. Por fim, precisamos dizer que a relação dialética entre o romance e a leitora (o leitor) parece-nos perfeita e harmoniosa nesta obra. Nunca é demais afirmar que este engenhoso e bem delineado romance de estréia de Sergio Santos, que com certeza absoluta ainda mais nos brindar com muitos outros, poderá iniciar um novo horizonte de sentido para os estudos literários na Amazônia.

* Professora doutora do Curso de Letras da UFAC, membro da Academia Acreana de Letras, crítica literária e ensaísta.

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