sábado, 24 de dezembro de 2011

DAR O CU É DESONRA?

Até certo tempo eu não entendia por que somos vestidos de tantos preconceitos. Compreendi aos poucos. O preconceito, além de ser a manifestação de quem realmente somos, de como fomos educado, do que pensamos, de que época em que nascemos etc., serve também como uma defesa. Sim, usamos o preconceito para nos defender, exaltando o que somos em função do que o outro é, porque assim o outro age e nos intimida. Por isso, há preconceito em tudo que é diferente, que é vário.

E quem pensa que preconceito é só contra negro, pobre, gay etc., engana-se. Nós podemos ser preconceituosos com quase tudo que nos rodeia, com a roupa que vestimos, com os adornos que usamos, com a forma de falar, com tudo que parece diferente no outro e consequentemente em nós.

Mas vamos falar do título dessa crônica.

O preconceito é tão vasto e diversificado que existe mesmo dentro de grupos que são vítimas constantes do preconceito. E acredito piamente que o grupo mais afetado por esse preconceito interno é o dos gays, porque nesse grupo existe uma divisão grande dos membros que o compõe. Isso porque aprendemos que todos têm um rótulo ou vários, mas precisa se encaixar em alguma coisa, ser uma coisa exata, ter uma identidade apesar de todos os elementos comuns que dividimos com todos.

Se existe preconceito entre os negros – e deve existir – não me parece ser tão grave como é com os gays. Se existe mais preconceito contra aqueles nem sempre ele está associado à sua cor, mas a outros fatores.

Com os gays, não.

Vamos começar pelos grupos menores: as bichas, as travecas, as mariconas, as bárbies etc. Dentro do grupo gay existem essas e outras divisões, conforme a vestimenta, o comportamento, as preferências e tudo aquilo que começa representar uma caracterização de um subgrupo gay. E isso é tão nítido que as pessoas vão naturalmente se juntando, e formando grupos. Quer uma prova disso? Vá a uma boate gay e veja como se organizam as pessoas que a frequentam.

Não precisa dizer que esses grupos têm preconceitos uns com os outros, chegando a ofensas, brigas e tudo o que o preconceito consegue incitar nas pessoas.

Mas vamos ao grupo que nos interessa neste texto. Posso falar dos outros em outro texto, e isso não é preconceito. Falemos dos ativos e passivos, a grande divisão dos gays. Esse grupo é inevitável. É gay, tem de pertencer a um desses grupos. Vamos explicar para quem é de “fora”. Ativo é o gay que “come”, passivo é o que “dá” e versátil ou total flex – como preferem alguns – é o que “come” e “dá”. Eu poderia usar uma linguagem mais refinada, mas eufemística, mas optei pelo “bom entendedor meia palavra basta’.

Dentro dessa divisão maior o preconceito é, claro, para os que “dão”. Natural isso. Somos resultado de uma sociedade machista em que a figura do homem cultuada é a do pegador, do conquistador, do macho. Essas referências todas não se perdem quando o sujeito se descobre gay, e por isso mesmo ele busca uma firmação da sua condição dentro de um grupo socialmente rejeitado, tentando se ajustar da melhor forma dentro dele. A “atividade” parece ser a forma mais adequada de se manter essa “macheza”. Claro que existem gays ativos que não sentem de fato tesão em serem passivos, o que também é possível de se discutir. Mas deixemos para uma outra situação.

O lance todo é que a denominação de “passivo” representa um problema para muitos gays, os quais se sentem vítimas de preconceito dos gays de forma geral, fora o fato de todos acharem que ser gay é “dar”, o que torna esse grupo ainda mais evidente e exposto. Claro que ninguém também anda com essa preferência sexual estampada na cara – mais ou menos. Isso porque os grupos se conhecem e todos acabam sabendo o que cada um prefere e, além disso, o comportamento de alguns da a impressão errada sobre essa preferência. Se o sujeito é afeminado, por exemplo, automaticamente é considerado “passivo” até que prove o contrário, o que não é tão fácil, visto que alguns simplesmente não se envolvem com os que têm traços de feminilidade.

Os versáteis – embora sejam ativos e passivos concomitantemente – também são vítimas de preconceito, principalmente dos ativos, que, por saírem com um, podem ser considerado um também, o que o colocaria também com um sujeito que “dá”. Além disso, os versáteis sofrem o preconceito de que a sua característica mais evidente é a “passividade” e não a “atividade”.

Isso tudo nos leva a concluir que “dá o cu é desonra”. Desculpa novamente a linguagem, mas eu queria falar essa palavra, porque é fugindo dela que a gente oculta também o nosso preconceito, porque temo-lo também com as palavras. Eu só queria deixar uma reflexão: o que parece mais “desonroso”, dar ou matar, usar drogas, roubar etc.? Não precisava nem comparar, né?

Independente de “dar” ou “comer”, somos todos pessoas e nossas preferências não podem ser julgadas e ser motivos de exclusão ou de qualquer forma de preconceito. É preciso simplesmente viver nossa vida sem nos preocuparmos muito com o que o outro é, porque, de alguma forma, podemos ser vítima do que somos.

Bem, eu poderia passar horas falando sobre isso, mas não vejo necessidade por enquanto. O que gostaria de deixar claro é como somos preconceituosos com tudo. E não adianta dizer que você não tem preconceito, porque tem, e isso é inerente à sua própria vontade, porque como dito acima, o preconceito nasce de tudo que nos forma, que nos direciona nessa vida. E podemos ter certeza, nunca deixará de existir o preconceito enquanto houver mais de um sujeito na terra. O que devemos fazer é aprender a lidar com nossos preconceitos e torná-los mais toleráveis.

Um comentário:

  1. Seu texto reflete claramente o que acontece no mundo gay.

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