segunda-feira, 26 de setembro de 2011

POR UM INSTANTE

POR UM INSTANTE

Sergio Santos

Por um instante eu queria que as pessoas parassem o que estão fazendo e olhassem nos olhos de alguém e sorrisse e esse sorriso fosse um conforto, um alento.

Por um instante eu queria que as pessoas batessem à porta do seu vizinho portando uma xícara com açúcar e lhe entregasse, desejando que a vida seja mais doce, e que se eles abraçassem e juntos tomassem um cafezinho adoçado com aquele açúcar levado.

Por um instante eu queria que, ao invés de darem uma moeda, as pessoas dessem um abraço ao pedinte da rua, porque mais que dinheiro, as pessoas precisam de carinho, de respeito, de saberem que alguém as vê.

Por um instante eu queria os partícipes de uma reunião parassem a discussão tensa, e sorrissem, dessem até gargalhadas, depois se abraçassem saíssem para comemorar a vida em algum barzinho próximo ao prédio onde trabalham, e que fossem a pé para verem as pessoas que transitam nas ruas.

Por um instante eu queria que uma arquibancada de futebol lotada aplaudisse a cada um dos presentes, do juiz à plateia oponente porque a vida só tem graças se existirem as pessoas.

Por um instante eu queria que os jornais televisivos parassem a notícia trágica do novo crime ou o novo escândalo político e dissesse aos telespectadores que nunca desacreditem nas pessoas, que mesmo diante das tragédias, é necessário crer, viver, querer.

Por um instante eu queria os colegas de trabalho saíssem de seus computadores e fossem de colega em colega abraçando-os e lhes olhando nos olhos, mostrando o quão significantes eles são.

Por um instante eu queria que os políticos pensassem que sua família poderia ser a família do pobre que nele votou, e que ele pensasse que suas ações podem aniquilar milhares de pessoas, tirando-lhes escola, saúde, dignidade, e que esse instante de reflexão os fizessem agir diferente em algum momento.

Por um instante eu queria que as pessoas parassem suas atividades e botassem uma música pra tocar, e sentissem a melodia de sua poesia, a combinação de suas notas e vissem como o ser humano é magnífico em suas criações.

Por um instante eu queria que as pessoas fossem à sua estante ou mesmo na internet e lessem um poema em voz alta e compreendessem que sem poesia é vida é menos, é rala, é vã.

Por um instante eu queria que as pessoas fizessem um minuto de silêncio em homenagem àqueles que já deixaram esse mundo para que eles e nós mesmos refletíssemos sobre como eles fazem falta nesse mundo.

Por um instante eu queria os médicos não desse os remédios aos seus pacientes, mas lhes sorrissem com sinceridade e os fizessem acreditar que ficarão curados.

Por um instante eu queria que os criminosos olhassem para os lados e vissem que ali não era o lugar no qual queriam estar e que para sair dali eles precisam buscar fazer o contrário do já fizeram e pensassem em quão importante é a paz, e compreender que a paz está em nós mesmos.

Por um instante eu queria que os adultos deixassem a amargura da vida corrida e voltassem a ser crianças, que chamassem os que estão ao seu lado e brincassem todos de roda e cantassem canções infantis para que descubram que a felicidade existe e é tão simples.

Por um instante eu queria que os soldados em guerra deixassem de lado as armas e mirassem os olhos de seus compatriotas e sorrissem em um abraço forte, permitindo que as lágrimas lavassem a escuridão do ato bélico e que os fizessem ver quão estúpida é a guerra.

Por um instante eu queria que os inimigos vissem esses soldados se abraçando e fizessem o mesmo porque o abraço os havia contagiado assim como a paz deve contagiar a todos.

Por um instante eu queria que todos pudessem ver o mar e que a emoção dessa visão fizesse brotar lágrimas nos olhos, porque não há nada mais nobre que o choro da emoção, do prazer imensurável, como mirar o mar.

Por um instante eu queria que as pessoas pegassem um copo com água e molhassem a planta de seu vizinho, do muro mesmo, e que esse vizinho visse esse ato e fizesse o mesmo, fazendo com que não apenas as flores brotassem, mas a amizade entre as pessoas.

Por um instante eu queria que os alunos deixassem de lado os cadernos, os livros, a conversa, e se levantassem e aplaudissem o professor à sua frente e lhe dissessem que o seu trabalho é nobre e que fará diferença em suas vidas, e depois todos saíssem de sala em sala e todos se abraçassem, do porteiro ao diretor da escola.

Por um instante eu queria que as pessoas não apertassem a buzina no trânsito e em vez de bradar palavrões, acenassem com a mão e lhes sorrissem, fazendo também sinal de legal.

Por um instante eu queria que todos os transeuntes que vagam rapidamente pela rua pegassem a mão um do outro e andassem todos de mãos dadas e que dançassem como se fizessem parte de um musical de Hollywood.

Por um instante eu queria que as pessoas fizessem isso e que essas ações saíssem na TV para que eu pudesse ver e me sentisse fazendo o mesmo daqui dessa sala de hospital.

Por um instante eu queria que o médico conseguisse amenizar a minha dor que se eterniza há semanas ou então que, pelo menos, cessassem a dor de todos os pacientes que daqui ouço chorarem suas dores.

Por um instante eu queria dormir e não mais acordar, mas que durante esse sono eu sonhasse que tudo quanto desejei que as pessoas fizessem e que eu não fiz porque só pensei nisso quando me vi preso a essa cama, fosse realidade e que eu pudesse deixar esse mundo acreditando que tudo isso aconteceu.

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