segunda-feira, 11 de abril de 2011

A TRAGÉDIA CONTEMPORÂNEA, A NOVA FORMA DE DIVERSÃO

Sempre fazendo literatura, ou tentando pelo menos, nunca fui de escrever textos reflexivos ou opinativos - talvez por fazer isso nas entrelinhas do que escrevo em forma de romance, conto ou poesia. Mas, por incentivo de um amigo jornalista e ex-aluno meu, Marcos Venícius, fiz o texto que segue abaixo. Espero que gostem e, se puderem, comentem.


A tragédia contemporânea, a nova forma de diversão

Que o ser humano tem tendência natural para a tragédia, isso já é sabido, mas andamos exagerando ultimamente. Se não bastassem os terremotos, os tsunamis, as enchentes, e todos os fenômenos naturais que assolam o mundo, estamos investindo duramente em novas formas de tragédias, como os assassinatos, os saltos de pontes, os assassinatos em massa de crianças indefesas. A impressão que se tem disso tudo é que antes – talvez isso sejam sensações dos saudosistas – não havia tanta violência. Violência sempre houve. Basta lembrar a saga de Cristo e do extermínio de milhares de pessoas nesse mundo por várias questões, principalmente as religiosas. Sem deixarmos de falar das guerras, das pequenas às grandes, das que duraram meses, das que passaram dos 100 anos.

Estamos travando novas guerras, as individuais, pois lutamos conosco mesmos, fazendo de quem está próximo o nosso inimigo, como se já não bastassem os inimigos que não conseguimos combater, como a fome, a má educação, os impostos, o preço da gasolina, as filas nos hospitais públicos – porque não tem mais valido a pena pagar plano de saúde – , o cinismo de alguns políticos. Talvez essas guerras que travamos, fazendo surgir novos criminosos, aconteçam porque não conseguimos lutar contra o que nos é mais forte e invisível, o tal sistema, que nos iguala em deveres, mas nos distingue em direitos, pois ainda sabemos que o dinheiro é a forma mais prática de poder. Se isso é um motivo, não sei ao certo, mas preciso encontrar uma resposta para tanta tragédia. E nessa luta em que nos defendemos de algo que nos assusta sem necessariamente sabermos o quê, agimos com tanta violência, que assustamos a nós mesmos.

Quando abrimos os jornais diariamente, não conseguimos mais somar a quantidade de crimes – muitos bárbaros – , como o rapaz que foi esfaqueado tantas vezes, o homem que foi “alvejado” com não-sei-quantos tiros, ou o rapaz que sumiu nas águas do rio Acre. Pior que saber dos fatos, é vê-lo, pois as imagens aterradoras estão expostas na internet. Aliás, falando de internet, que instrumento maravilhoso para apreciarmos de perto a tragédia humana. Antes, restringíamos a ver uma foto em preto e branco da carteira de identidade da vítima. Agora, vemos a própria ferida, como as “rosas cálidas” do poema do Vinícius. Nossos olhos brilham diante das imagens nossas de cada dia, pois estamos nos acostumando a vê-las, fazendo delas um objeto de desejo, assim como faziam os expectadores das tragédias gregas. Essas eram inspiradas nos deuses e tinham um certo ar de sublime, de superior, de maior. As nossas não! São humanas e reais. As medeias se espalharam pelo mundo, e os Apolinices não necessariamente apodrecem ao relento, mas são expostos tal qual o irmão de Antígona, morto em combate por poder. Se Creonte, na obra de Sófocles, pune o atrevido Apolinices deixando seu cadáver exposto para que se visse sua degradação – a visão mais aterradora do ser humano – , nós clicamos para ver essa cena se repetir diariamente, fazendo com que percamos o medo ou não sintamos mais náuseas. Tudo isso muito provavelmente porque “a dor dos outros não sai no jornal” – o Chico tava certo. Talvez se a dor saísse nas páginas dos jornais ou nas imagens da internet, não nos tornaríamos expectadores de tanto horror.

Hoje, caminho – e quando caminho – com medo de ser mais uma personagem das novas tragédias. Sei lá! De repente alguém pode achar que sou feio para o padrão vigente e me “alvejar”, aliás, verbo que já faz parte das nossas vidas, assim como a expressão “os populares”, que equivalem aos expectadores das cenas, se não no momento de ocorrência, pelo menos segundos depois dela. Uma coisa é certa: gostamos mais de ver a desgraça alheia do que mulher pelada ou um famoso no auge de sua fama. Basta passarmos perto de algum acidente ou crime para vermos a quantidade de pessoas que cercam a cena e se deliciam com a sensação do visto ao vivo. Parece até a música do Mílton em cuja letra se lê que “o artista vai onde o povo está”. Nesse caso é o espetáculo que vai atrás do público, visto que as tragédias diárias acontecem a todo instante e tem sempre expectadores a postos.

Poderia ainda falar muito sobre o nosso lado trágico, do nosso prazer pela dor alheia. É, tornamo-nos sádicos sem sequer saber quem foi Sade. Mas prefiro parar por aqui e refletir sobre o que vem pela frente – pedindo a Deus que nos permita estar vivos para ver ou para nos fazer perder o gosto de ver tantas desgraças. Seria muito bom se conseguíssemos nos emocionar mais com uma medalha olímpica do que com os tiros que alvejaram fulano de tal – e quando falo de emoção falo da emoção do prazer, porque a emoção do medo e do terror já não conseguimos mais sentir. É isso!

Rio Branco, 11 de abril de 2011.


Nenhum comentário:

Postar um comentário