sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O REGRESSO - Livro Um - Trecho dois

Depois de fazer digressões sobre sua vida na casa onde morou com os pais, Luís Carlos parte para Rio Branco. Suas impressões quando revê a casa de seus pais:

Quando eu cheguei à casa de mamãe, a primeira figura que eu vi foi Lorena, que estava sentada na varanda. Não imaginei que a visse assim que chegasse. Cumprimentei-a e entrei na casa. Mamãe estava na cozinha sentada à mesa de madeira que ficava próxima ao fogão. No mesmo instante em que mirei mamãe à mesa, minhas lembranças me levaram para alguns anos atrás: a cozinha ainda era exatamente a mesma imagem da minha infância. Era como se mamãe tivesse posto a mesa no mesmo lugar de há uns 20 anos mais ou menos. Tentei não me levar por aquela lembrança, mas ela foi tão forte que não resistir a voltar ao passado, a regressar minhas recordações daquela casa que tinha tanta história para se contar. Minha mãe soergueu o corpo e, virando para a esquerda, avistou-me. Percebi que ela me vira pelo olhar terno dela e pelo sorriso confortante. Foi estranha e paradoxal a sensação, mas exatamente quando voltei a ver mamãe depois de um tempo foi que senti saudade.

Eu havia levado comigo mágoas e vontades de esquecer aquele lugar, e junto de tudo isso, parecia que eu levara também desamor pela minha família. Não era isso, mas também não deixava de ser, pois se amava meus pais do mesmo jeito, fui negligente com eles não ligando muito nem fazendo visitas. Eu havia me afastado demais do seio familiar e agora, contemplando minha mãe, que estava muito mais velha do que eu previra, eu tinha certeza da minha negligência. Envergonhei-me, mas tentei não ressumbrar a vergonha. Minha mãe era uma figura linda: os cabelos brancos e presos a um coque e alguns grampos davam a ela a leveza que a gente enxerga nas velhinhas dos contos de fadas. Mas naquele caso, não era uma velhinha de um conto de fadas; era minha mãe. Pareceu-me que a imagem que eu tinha de minha mãe era sempre de uma mulher com idade mediana. A minha distância contribuiu para que eu permanecesse com a imagem do passado dela, como se assim eu não vislumbrasse o seu envelhecimento.

Ela se levantou e veio em minha direção.

Fui ao seu encontro. Abraçamo-nos sem nada dizer. Ela era mais baixa que eu e parecia ainda mais. Talvez pela curvatura das costas, que estava mais acentuada. Mas sua mão era ainda tão delicada como dantes. Os dedos finos e ligeiramente ásperos pelo trabalho constante na cozinha tinham uma forma especial de tocar a gente. Depois do abraço, ela passou a mão no meu rosto, como se fosse um sego tentando ver. Na verdade, ela buscava encontrar naquele rosto de homem a criança que ela criara com tanto esmero. Por mais que eu tivesse já os sinais da idade, ela pareceu ter encontrado o que queria, pois farto foi o seu sorriso quando sentiu minha pele em seus dedos. As lágrimas minhas vieram nos olhos, mas as contive a tempo de não deixá-las cair.

− Oh, meu filho, que saudade! – Foi o que ela disse.

Não consegui dizer nada. Fiquei uns instantes sem falar, como se tivesse estudando o que ela me havia dito.

− Eu também, mamãe, eu também.

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