sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O REGRESSO - Livro Um - Trecho um

Início do Livro Um:


Quando eu recebi o telefonema de Lorena, reportei-me a um lugar distante da minha vida. Há quanto tempo eu não a via? Não tinha ideia, mas creio que desde que deixei a casa de meus pais. Sua voz ao telefone me soou muito doce, o que fez suspeitar de que não fosse ela do outro lado da linha. Lorena nunca foi doce, pelo menos comigo. Ela era sempre prática e lógica. A doçura não era uma de suas características notórias, talvez a fosse em situações mais específicas, e a minha estranheza à sua doçura se devesse ao fato de eu não compartilhar com ela esses momentos específicos, que deveriam ser compartilhado com mamãe, com quem ela era diferente. Talvez fosse a idade que estava lhe tornando menos racional. Como ela estaria agora? Teria ainda a pele clara e lisa como dantes? Ou rugas lhe cobriam a juventude de outrora? Nessa busca de saber como se encontrava a minha irmã quase dois anos mais nova que eu, refleti sobre como eu estava. Se havia rugas cercando meus olhos cansados e franzindo minha testa, deveria haver isso no rosto dela também, mas eu também as tinha em pouca quantidade. Imaginei que ela menos ainda, pois era muito mais vaidosa que eu, como são as mulheres em relação aos homens. Mesmo se cuidando, ninguém estava imune à decadência do envelhecimento da carne humana, muito menos Lorena, que me parecia sempre ser tão infeliz ou pelo menos fechada em seu mundo, como se guardasse um segredo. Vai ver essa impressão eu tinha porque eu guardava um, e muito provavelmente ela teria a mesma ideia a meu respeito.

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