terça-feira, 19 de outubro de 2010

DE SAUDADES E VERDURAS




Esse conto que segue foi premiado no Primeiro Concurso de Contos Gráfica Belacop. A capa da coletânea onde se encontra o conto está exposta acima. O texto segue abaixo.



DE SAUDADES E VERDUDAS


Ela cresceu ouvindo de sua mãe que uma mulher prendada tinha mais chances de arranjar um marido. Por isso ela sabia fazer de tudo, dos cuidados com a limpeza aos bordados. Os conselhos de sua mãe soavam como ladainhas em seu ouvido já cansado de ver sua mãe dar lições o tempo todo. Não que sua mãe não tivesse razão em alguns deles, mas era que ela exibia sempre aquele ar de “quem-sabe-tudo-e-nunca-está-errado”. E não havia nada que enfurecia mais Diana do que alguém lhe aconselhar com aquele ar. Bastavam dizer: “Diana, faz assim que é melhor”, mas não; preferiam dizer: “Faz assim que eu sei o que tô dizendo.” Droga de vida! Desabafava ela sozinha. Por isso Diana era gorda! Porque não ouvia os conselhos da mãe! “Não come tudo isso, menina!” Mas como a mãe já falava por tudo mesmo, ela nem ligava tanto assim. Comia bastante. Pelo menos comer era algo que lhe dava prazer. Só não gostava muito de verduras, frutas, legumes; preferia as carnes, as massas, o feijão bem temperado. E sua mãe dizia mais: “Como um pouco de verdura, Diana! Vai ficar igual à filha da Zefa! Eita menina teimosa! Nem mesmo depois que fizera 27 anos, como naquele ano, sua mãe deixara de lhe dar conselhos. Sempre que algo acontecia ou estava para acontecer, a sua experiência previa: ela desabava a dar lições, conselhos e tudo isso que incomoda a todos, principalmente Diana.

Ainda bem que iria morar sozinha com o marido. Desde que se casara, há dois anos, morava com a mãe. O marido, que era caminhoneiro e por isso vivia viajando, não conseguiu nesse tempo, comprar a casa dos dois, e todos, principalmente sua mãe, que sabia de tudo, achou melhor que eles morassem lá, afinal a casa era grande e como Diana iria ficar mais tempo sem o marido do que com ele, sozinha era ruim de ficar. Ficou lá então até o momento em que Paulo, ajuntando dinheiro aqui e acolá, conseguiu comprar uma casa, modesta mesmo, mas ideal para os dois. A compra da casa implicou uma série de mudanças na vida de Diana. Primeiro, a aquisição dos móveis e eletrodomésticos para a casa nova, a mudança. Para complicar tudo isso, tudo tinha de ser feito conforme sua mãe, dona Evalda, dizia como deveria ser. Se ela queria o liquidificador assim, dona Evalda dizia que o de outra forma era melhor, mais forte, não quebrava fácil e era bom de lavar. Então Diana comprava o que a mãe sugeria. E assim fora com quase tudo que ela e o marido compraram. Se compravam sem a consulta de dona Evalda, ouviam depois. Mas nesse caso, havia compensação: não se tinha seguido o conselho dela. E sem perceber, Diana via que esse não era o melhor negócio, pois eles – Diana e o marido – ficariam à mercê dos comentários de dona Evalda, que sempre discursava: “Se tivessem pedido meu conselho...” Já não se sabia o que era pior. Mas ia-se levando.


Contudo, chegou o dia em que Diana fora morar sozinha com o marido. A casa lhe pareceu enorme, não só porque não tinha a tralha que sua mãe acumulava há anos, com também, por ser só ela e Paulo, parecia que sobrava espaço em todo o canto. E ela havia gostava da sobra de espaço. Poderia aproveitar com coisas que iriam lhe dando na cabeça. A mãe, porém, se tivesse lá com ela, diria que no canto tal deveria colocar uma mesinha com flores, no outro canto uma poltrona poderia ficar legal, e assim por diante. Mas agora ela se sentia mais feliz: estava na sua casa e tudo o que faria ali era por sua conta sem o risco de sua mãe se intrometer com seus conselhos. O almoço era o que ela queria, a janta também e o café e a merenda da tarde e tudo. Paulo, que quando estava em casa era tranquilo, deixava por conta dela toda e qualquer escolha. E Diana seguia a sua vida cuidando de si agora, só tendo a presença da mãe de vez em quando.


O outro motivo da felicidade de Diana era poder curtir o marido melhor. Como morava na casa de sua mãe, os dois eram comedidos nas horas íntimas. Tinham vergonha de que dona Evalda desse palpite até sobre a intimidade, o que, graças a Deus, nunca chegou a acontecer. Quanto a isso, ela pareceu discreta, aliás, discretíssima, pois nem tocar no assunto tocava. Mas, mesmo sem a mãe falando ou comentando, o fato é que Diana passou dois anos com o marido na casa da mãe e por isso não pôde viver mais intensamente a vida de casada. Sempre fora uma mulher de poucos namorados, e menos ainda daqueles que passavam da conta. Ela era de respeito, assim como sua mãe ensinara. Por isso tinha arranjado marido bom, honesto, trabalhador, e ainda, bonito. Ela era muito orgulhosa da escolha que fizera. Paulo era um bom partido. Era daqueles homens parrudos, com cara de homem, peito cabeludo, barba farta e braços e pernas grossas, sem que houvesse necessidade de malhar. Tudo natural! Homem, ora! Mas se Diana estava animada com a liberdade da casa nova, Paulo então era só sorriso. Já na primeira noite em que passaram juntos, foram três! E pela manhã mais uma! Estavam curtindo a casa, a liberdade. E podiam fazer estripulias. Andavam de roupa íntima na casa, e até nus, transavam na sala, na cozinha.


Durante a permanência de Paulo em casa, Diana aproveitava cada momento de prazer ao lado do marido. Talvez fizesse isso para compensar a falta que ele fazia quando estava fazendo entregas. Passava de 15 a 20 dias fora. Ela ficaria sozinha desta vez. Sua mãe até que lhe recomendara que ela fosse pra lá quando Paulo viajasse. Mas Diana preferiu ficar em casa sozinha. Adorava a mãe, mas estava cansada dela, de seus conselhos, de tudo. Ficou sozinha em casa.


Paulo já estava fora há três dias. Acostumada à atividade sexual contínua quando Paulo estava em casa, Diana começou a sentir falta dele. Não apenas dele, mas do sexo que ele lhe proporcionava. Todas as vezes em que ia se deitar na grande cama sozinha, ela sentia um vazio imenso, como se estivesse numa prisão e não pudesse receber a visita de ninguém. E era como se também não tivesse comida, como se tudo lhe faltasse. Olhava a cama e via até a imagem do marido deitado sobre ela lhe olhando e a convidando para o sexo. Mas quando piscava os olhos no ato involuntário, constatava que o marido lá não estava. Ela então se encolhia do seu canto e tentava dormir. Infelizmente não conseguia; a sensação de vazio permanecia e ela não conseguia pregar os olhos. Levantava, ia à geladeira, pegava alguma coisa, comia, voltava para a cama, deitava novamente, tentava dormir, e nada. O vazio do marido permanecia nela e em seus pensamentos. Depois de muito insistir, conseguia dormir já altas horas.


Na noite seguinte, a mesma sensação lhe batia à porta. Ela fazia o mesmo ritual de se levantar, ir até a geladeira etc. Acontece que naquele dia – quatro depois da ida de Paulo – ela parou em frente à geladeira e ficou contemplando o que tinha lá. Ao ver um pode de doce de leite, que muito o marido gostava, lembrou-se dele. Mas viu-se surpreendida porque a lembrança que teve dele foi lasciva, incrivelmente lasciva. Ela nem pôde conter o risinho que se formou em seus lábios fartos e avermelhados. O que seria aquilo? Por que havia pensado no marido com tanta lascívia? Algo de errado estava acontecendo? Refletindo um pouco mais, aferiu que pensar no sexo do marido era algo normal se considerar que entre os dois havia grande intimidade. O que sucedeu àquele pensamento também causou em Diana certo embaraço. Ao se agachar para apanhar uma maçã ainda dentro do saco no gavetão da geladeira, ela remexeu nas verduras que tinha lá e viu as cenouras. Tentou até não fazer associações, mas não pôde deixar de vê-las como se fosse o sexo do marido. Na verdade, não eram tão parecidas senão pelo formado roliço e comprido. As cenouras lhe pareceram bem mais finas. E riu-se quando as considerou finas. Mas pegou uma delas, a mais grossa que achou e a trouxe consigo, fechando a geladeira em seguida.


Sentou-se na cadeira da mesa da cozinha e ficou contemplando a verdura fálica. Seus pensamentos percorrem seu cérebro em rápidas voltas e a incitaram à malícia, a que ela reagiu com certo pudor, mas com prazer. Seria a cenoura uma substituição à altura do pênis do marido? Ela ainda hesitou mais vezes, mas acabou se levantando e indo à pia lavar a cenoura, que depois foi enxugada pela toalha que Paulo usava. Já no quarto, Diana se despiu e depois se deitou na cama. Hesitou entre colocar na cenoura um preservativo ou não, decidindo por não pô-lo. Levou-a então até seu sexo já umedecido pela ousadia que fazia naquele instante. Assim que a cenoura tocou sua pele quente, sentiu a verdura numa temperatura muito baixa, o que causou-lhe certo desconforto. Mas não se exonerou de praticar com a cenoura sexo. Penetrou-a lentamente na vagina, absorvendo sua frescura, que outrora lhe causara desgradável sensação, mas que agora se convertia em prazeroso deleite. Iniciou então os movimentos de vai-e-vem e se deixou levar naquele ato proibido, mas profundamente prazenteiro. Enquanto o tinha entre as pernas e se contorcia por tê-lo lá, com a outra mão, apalpava os seios rijos de gosto pelo que sentia seu corpo e soltava baixos gritos. E numa profusão de movimentos, gestos, sensações e medo e ousadia, ela rompeu-se em espasmo de um clímax total, como talvez ainda não tivesse sentido.


Na cama, deixou-se ficar deitada e exausta pelo esforço feito no intuito do prazer total, ainda com a cenoura dentro de si. Havia-a deixado lá para senti-la até que o prazer de seu corpo se esvaísse por completo e o objeto inserido em si já não lhe proporcionasse nenhum divertimento. Depois de instantes, retirou-o de si e o pôs sobre o criado mudo. Contemplou-o e não conseguiu evitar o riso farto que lhe inundou o rosto feliz. O pênis do marido havia se convertido numa cenoura, uma verdura, comestível até, embora não nutrisse por ela muito gosto. Mas se não tinha muito apreço, sentiu vontade naquele instante de devorá-la. Era como se tivesse diante de si a possibilidade de degustar o sexo do homem depois de copular com ele.


Levantou-se da cama e, levando a cenoura consigo, rumou para a cozinha. Lá chegando, Diana não pensou duas vezes: lavou a verdura e, abrindo a gaveta do armário, pegou o ralador e fez da cenoura uma salada, que temperou com um pouco de sal, limão e azeite. Depois, como se comesse o mais delicioso dos pratos, deliciou-se a cada punhado que punha na boca. Comeu lentamente, como se assim prolongasse o prazer daquele manjar.


Naquela noite, Diana não teve insônia. Dormiu profunda e felizmente, mantendo o riso nos lábios enquanto seu corpo descansava do esforço que fizera há pouco.


No dia seguinte, Diana se recordou do que havia feito e não pensou duas vezes novamente: fez feira ainda cedo, comprando, ao seu próprio espanto, mais cenouras, pepinos e nabos. Sabendo que o marido passaria ainda mais doze dias fora, coincidentemente foi o número de verduras que ela havia comprado na feira. À noite, experimentá-los-ia na temperatura ambiente ou talvez aquecido em banho-maria.


Daquele dia até o dia em que o marido voltou para os seus braços, Diana experimentou as mais estranhas e deliciosas sensações com as verduras que tinha comprado, comendo-as sempre em saladas após o ato sexual. Sempre que o marido se ausentava para nova viagem de caminhoneiro, ela se entrega aos prazeres de suas verduras. E foi assim que rapidamente ela, sem que a mãe intercedesse e a obrigasse, passou a gostar de verduras, e lentamente foi emagrecendo, perdendo o excesso de gordura que cobria seu corpo, relevando curvas que lá estiveram guardadas por vinte e tantos anos.

Um comentário:

  1. Tive a oportunidade de ler este livro numa dessas manhãs nubladas, do próprio livro tirado a prateleira pelo autor que vos criou este conto. Felicitado fiquei, apaixonado até por Diana que agora também és minha.

    Abraços.

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