quarta-feira, 12 de novembro de 2014

SEXO ORAL NA ESCOLA: E DAÍ?



O alvoroço causado pela “selfie” veiculada em redes sociais do sexo oral praticado na escola Armando Nogueira se deve, muito provavelmente, à circulação da foto, não ao fato. Os que puniram com palavras moralistas os autores da cena levemente erótica parecem ter esquecido o passado e as estripulias dos jovens de outrora. Dizer que escola não é lugar de se fazer esse tipo de coisa é óbvio e desnecessário. Assumir, contudo, que já fizemos, na escola, que não deveríamos fazer tem lá suas necessidades.

O espanto maior disso tudo é a divulgação imediata e alarmante dos atos dos dois jovens. Não fosse a divulgação, o ato não seria condenado, porque não seria sabido. Por isso, reforço que o alvoroço se deve à exposição e não ao ato. A cena visualizada por milhares de pessoas nas redes sociais faz parte de uma adolescência normal como qualquer outra que, em alguns momentos, enverede pela rebeldia – ou nem isso. Quem nunca fumou escondido um cigarro para saber como era ou mesmo para se afirmar? Quem nunca deu uns “pegas” atrás de alguma sala, aquela escurinha, mais distante da escola? Quem nunca olhou pelo buraco da fechadura alguém nu ou fazendo sexo? A curiosidade e as experimentações adolescentes são normais e não deveriam causar tanto alvoroço. Criticar severamente os adolescentes envolvidos no ato é desconsiderar que também fizemos coisas “erradas”, na nossa época; é ser hipócrita com o que fomos e fazemos, às vezes. Garanto que existem coisas bem mais condenáveis que praticamos e que ruborizariam os dois protagonistas da “selfie” erótica.

Antes que recaiam sobre mim as críticas de que estou sendo conivente com o ato, deixo claro que não faço apologia a ele e que acho papel indeclinável da escola proibir esse tipo de ato, assim como acho fundamental que os pais sejam avisados e tomem as providências, sobretudo a de orientar seus filhos a respeito do sexo e da segurança que é preciso ter durante o ato sexual. Fechar os olhos à iniciação sexual de adolescentes é ato retrógrado e careta; orientá-los para o ato saudável é o dever de todos os adultos que têm algum adolescente sob sua responsabilidade. À escola cabe também esse papel. Mas não façamos tanto alvoroço com isso e olhemos um pouco mais a trave que jaz em nossos olhos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ERGUIDA SOBRE A COVA ELA CONTEMPLA

Este poema foi escrito durante a aplicação de uma prova para seleção de professores para o Colégio de Aplicação. Dediquei-o a Simone de Souza Lima, que foi minha professora de Literatura e hoje é colega de trabalho e que na ocasião da feitura do poema, delicadamente fez um conto e o dedicou a mim. O soneto foi selecionado para compor o livro VERSOS SOPRADOS PELOS VENTOS DO OUTONO: textos selecionados no Primeiro Concurso de Poesias da Big Time Editora, plublicado em setembro de 2012.
Ei-lo:




ERGUIDA SOBRE A COVA ELA CONTEMPLA*


Erguida sobre a cova ela contempla
O caixão deitado do amante amado.
No peito feito ferro tem cravado
Seu amor recolhido, que a sustenta.

A lágrima que desce pela face
Dela é grossa, cortante, enegrecida.
Essa lágrima a toma combalida;
E ela grita sua dor sem que disfarce.

Viúva ficara, e sem um filho
Para ter do marido uma lembrança,
A mão no ventre busca uma esperança.

Vendo ela que ali filho não gera,
Desistente da vida se declara.
E pra unir-se ao marido, ela se mata.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

O QUE OS GAYS QUEREM?




Estamos nos aproximando mais uma vez da Semana da Diversidade, realizada pelo movimento GLBT do Acre desde 2005. Acredito que essa proximidade seja momento propício para a reflexão dos direitos dos homossexuais e tudo que implica essa questão, momento talvez para nos perguntar: O que os gays querem?
Acredito sinceramente que todos querem o respeito, o direito, a dignidade, a igualdade, enfim, exercer seu papel de cidadão e ser considerado como tal independentemente de sua condição/natureza sexual. Mas eu me pergunto se de fato é isso que temos feito para adquirir isso tudo.
A Semana da Diversidade é um evento que consiste na exposição de obras de artes sobre as questões homossexuais, além de palestras, discussões, shows etc., que culmina na grande atração da Semana, a Parada do Orgulho Gay. Mas você sabe o que é uma parada gay? O moderno movimento de orgulho gay começou após a Rebelião de Stonewall, em 1969, quando homossexuais em bares locais enfrentaram a polícia de Nova Iorque durante uma rusga inconstitucional. Apesar de ter sido uma situação violenta, deu à comunidade até então underground o primeiro sentido de orgulho comum num incidente muito publicitado. A partir da parada anual que comemorava o aniversário da Rebelião de Stonewall, nasceu um movimento popular nacional, e atualmente muitos países em todo o mundo celebram o orgulho LGBT. O movimento vem promovendo a causa dos direitos LGBT pressionando políticos, registando votantes e aumentando a visibilidade para educar sobre questões importantes para a comunidade LGBT. O movimento de orgulho LGBT defende o reconhecimento de iguais “direitos e benefícios” para indivíduos LGBT¹.
Se bem observarmos, o movimento nasceu da resistência e tem o intuito de promover o “orgulho” de ser gay, dando aos homossexuais condições para que estes não baixem mais a cabeça e se envergonhem de ser o que são. Mas será que temos orgulhos de fato de ser gay? Nunca sociedade construída sob os pilares do machismo que durante anos também sufocou as mulheres e consequente os homossexuais, é difícil falar em “orgulho gay”, não porque de fato não o tenhamos, mas porque vivemos numa sociedade que ainda nos olha “torto” por sermos diferentes, ignorando o direito à diferença, a que todos têm, pois ninguém é igual a ninguém. Isso inevitavelmente nos tolhe ainda de sermos ou nos consideramos livres para ser o que somos, com todas as nossas “diferenças”. Mas fora isso, os gays ainda sofrem a “vergonha” dos próprios gays que compõe essa minoria que vem a cada dia lutando pelos seus direitos. Infelizmente, as paradas gays, sobretudo no Brasil, o país do carnaval, têm sofrido consideráveis mudanças na sua configuração e, o que é pior, na sua política. De um movimento de resistência, passamos a realizar um “carnaval fora de época”, repleto de elementos que causam mais vergonha a muitos gays do que “orgulho”, como as fantasias exageradas e que só existem na parada, o desfile obrigatório dos gogo boys seminus, e a esperadíssima participação de um famoso cantor para agitar os foliões, digo, manifestantes, que vão, de fato, “atrás do trio elétrico”.
Será que em algum momento as pessoas pararam para refletir se esse modelo de parada funciona? Se ele de fato faz as pessoas refletir sobre as questões homossexuais? Se passa a essas pessoas a imagem que queremos que tenham de nós? Muito provavelmente não, embora as paradas se encham de héteros, o que para muitos é motivo de orgulho. Analisemos um pouco e vejamos os fatos. Muitos héteros vão para a parada para aproveitar o carnaval fora de época e beijar à vontade, afinal é uma festa pública cujo gasto é só o transporte e as cervejas carregadas em milhares de isopores. Os que não vão para se beijar entre si (homem e mulher) vão também para utilizar dos “serviços” sexuais dos gays, que acabam nas ruas escondidas ou em lugares discretos para fazerem sexo, servindo a uma parcela dos homens que “curtem” os gays. Alguns ainda dizem: “Mas vai criança também!” E sinceramente acho isso uma pena, pois não sei se queria que um filho meu visse em muitos gays ali espalhados o modelo de comportamento. Não pensem que sou puritano, mas não acho que expor crianças a esse tipo de ação seja adequado, sobretudo porque, se gay, essa criança tem mais tendência a ter problemas do que soluções, pois o medo de expor aquilo que é tão visivelmente mostrado nos desfiles de gays de cueca, bichas bêbadas se jogando em cima dos caras, pode fazê-lo recuar desse mundo e não sentir-se à vontade em assumir-se.
O que mais me revolta na Parada é o preconceito por parte dos próprios manifestantes, que ainda dividem os gays em grupos e agem diferentemente com cada um, evitando a mistura com “esse tipo de gente”. É deplorável ver aqueles que são mais “resolvidos” e independentes – e sobretudo eles – agirem assim num momento que é feito para se garantir o direito à igualdade. Infelizmente quem mais sofre esse preconceito são os travestis, os gays pobres e os mais afetados, que acabam por ser a escória não só dá sociedade, mas também dos próprios gays.
Voltando à Semana da Diversidade, infelizmente não a tenho visto com bons olhos, não pelo que se discute nela, pelo que se expõe lá, mas para quem ela faz isso. No Acre, por exemplo, a Semana da Diversidade acontece única e exclusivamente para a classe média ou a pessoas que já têm considerável consciência sobre sua sexualidade e não precisam tanto disso. Ora, a Semana tem de chegar aonde a Política e a Educação chegam parcamente, na periferia, onde de fato, estão os gays que sofrem com a condição de ser gay e em função de tudo isso está distante deles, não vão deixar tão cedo de sentir “vergonha” de ser gay. O que conseguem é enfrentar essa situação, reagindo do jeito que podem às pedras que a sociedade lança sobre esses pobres coitados, que além de privados da Educação e consequentemente de uma série de direitos essenciais, são privados do movimento que existe para defender seus direitos.
Este ano, e finalmente isso aconteceu, a Semana da Diversidade será realizada sem a ajuda do Governo ou da Prefeitura. Isso é um ganho muito grande, visto que todo movimento de resistência feito sob salvaguarda de um governo, é fraco e tem parte de seu discurso cerceado porque a parceria pode – e geralmente implica – a aceitação das ideologias deste, o que não é saudável para nenhum tipo de movimento. O governo deve contribuir com aquilo a que todos têm o direito, independente de quaisquer motivos, como a segurança, a garantia do espaço a ser usado, que é público.
Em função da não-ajuda do governo, o movimento está fazendo campanha de arrecadação para realizar a Semana e a Parada, o que é extremamente louvável, pois, acredito, cada manifestante vai sentir que todo o movimento é de fato fruto do esforço e do desejo de mudança, de luta pelos direitos. Isso significa que sou à favor da arrecadação para a realização do movimento, desde que se repensem as posturas até hoje vistas e analisadas aqui, para que façamos de um movimento que surta efeito pelo menos a longo prazo, mas que sirva de um momento de reflexão, que seja, de fato, uma PARADA para o pensamento, não um momento para se curtir um carnaval e todos encherem a cara e fazerem aquilo que queremos que não pensem que fazemos.
Eu, Sergio Santos, professor, escritor, cidadão e gay, disponho-me a ajudar o movimento e me ofereço para o que estiver ao meu alcance para a realização de tudo isso, desde que a Semana e a Parada sejam esse movimento em que acredito. É preciso, depois do que já conquistamos, repensar nossas posturas e fazer um movimento que está mais que na hora de ser sério.



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1 Fonte: www.wikipedia.com

sábado, 24 de dezembro de 2011

DAR O CU É DESONRA?

Até certo tempo eu não entendia por que somos vestidos de tantos preconceitos. Compreendi aos poucos. O preconceito, além de ser a manifestação de quem realmente somos, de como fomos educado, do que pensamos, de que época em que nascemos etc., serve também como uma defesa. Sim, usamos o preconceito para nos defender, exaltando o que somos em função do que o outro é, porque assim o outro age e nos intimida. Por isso, há preconceito em tudo que é diferente, que é vário.

E quem pensa que preconceito é só contra negro, pobre, gay etc., engana-se. Nós podemos ser preconceituosos com quase tudo que nos rodeia, com a roupa que vestimos, com os adornos que usamos, com a forma de falar, com tudo que parece diferente no outro e consequentemente em nós.

Mas vamos falar do título dessa crônica.

O preconceito é tão vasto e diversificado que existe mesmo dentro de grupos que são vítimas constantes do preconceito. E acredito piamente que o grupo mais afetado por esse preconceito interno é o dos gays, porque nesse grupo existe uma divisão grande dos membros que o compõe. Isso porque aprendemos que todos têm um rótulo ou vários, mas precisa se encaixar em alguma coisa, ser uma coisa exata, ter uma identidade apesar de todos os elementos comuns que dividimos com todos.

Se existe preconceito entre os negros – e deve existir – não me parece ser tão grave como é com os gays. Se existe mais preconceito contra aqueles nem sempre ele está associado à sua cor, mas a outros fatores.

Com os gays, não.

Vamos começar pelos grupos menores: as bichas, as travecas, as mariconas, as bárbies etc. Dentro do grupo gay existem essas e outras divisões, conforme a vestimenta, o comportamento, as preferências e tudo aquilo que começa representar uma caracterização de um subgrupo gay. E isso é tão nítido que as pessoas vão naturalmente se juntando, e formando grupos. Quer uma prova disso? Vá a uma boate gay e veja como se organizam as pessoas que a frequentam.

Não precisa dizer que esses grupos têm preconceitos uns com os outros, chegando a ofensas, brigas e tudo o que o preconceito consegue incitar nas pessoas.

Mas vamos ao grupo que nos interessa neste texto. Posso falar dos outros em outro texto, e isso não é preconceito. Falemos dos ativos e passivos, a grande divisão dos gays. Esse grupo é inevitável. É gay, tem de pertencer a um desses grupos. Vamos explicar para quem é de “fora”. Ativo é o gay que “come”, passivo é o que “dá” e versátil ou total flex – como preferem alguns – é o que “come” e “dá”. Eu poderia usar uma linguagem mais refinada, mas eufemística, mas optei pelo “bom entendedor meia palavra basta’.

Dentro dessa divisão maior o preconceito é, claro, para os que “dão”. Natural isso. Somos resultado de uma sociedade machista em que a figura do homem cultuada é a do pegador, do conquistador, do macho. Essas referências todas não se perdem quando o sujeito se descobre gay, e por isso mesmo ele busca uma firmação da sua condição dentro de um grupo socialmente rejeitado, tentando se ajustar da melhor forma dentro dele. A “atividade” parece ser a forma mais adequada de se manter essa “macheza”. Claro que existem gays ativos que não sentem de fato tesão em serem passivos, o que também é possível de se discutir. Mas deixemos para uma outra situação.

O lance todo é que a denominação de “passivo” representa um problema para muitos gays, os quais se sentem vítimas de preconceito dos gays de forma geral, fora o fato de todos acharem que ser gay é “dar”, o que torna esse grupo ainda mais evidente e exposto. Claro que ninguém também anda com essa preferência sexual estampada na cara – mais ou menos. Isso porque os grupos se conhecem e todos acabam sabendo o que cada um prefere e, além disso, o comportamento de alguns da a impressão errada sobre essa preferência. Se o sujeito é afeminado, por exemplo, automaticamente é considerado “passivo” até que prove o contrário, o que não é tão fácil, visto que alguns simplesmente não se envolvem com os que têm traços de feminilidade.

Os versáteis – embora sejam ativos e passivos concomitantemente – também são vítimas de preconceito, principalmente dos ativos, que, por saírem com um, podem ser considerado um também, o que o colocaria também com um sujeito que “dá”. Além disso, os versáteis sofrem o preconceito de que a sua característica mais evidente é a “passividade” e não a “atividade”.

Isso tudo nos leva a concluir que “dá o cu é desonra”. Desculpa novamente a linguagem, mas eu queria falar essa palavra, porque é fugindo dela que a gente oculta também o nosso preconceito, porque temo-lo também com as palavras. Eu só queria deixar uma reflexão: o que parece mais “desonroso”, dar ou matar, usar drogas, roubar etc.? Não precisava nem comparar, né?

Independente de “dar” ou “comer”, somos todos pessoas e nossas preferências não podem ser julgadas e ser motivos de exclusão ou de qualquer forma de preconceito. É preciso simplesmente viver nossa vida sem nos preocuparmos muito com o que o outro é, porque, de alguma forma, podemos ser vítima do que somos.

Bem, eu poderia passar horas falando sobre isso, mas não vejo necessidade por enquanto. O que gostaria de deixar claro é como somos preconceituosos com tudo. E não adianta dizer que você não tem preconceito, porque tem, e isso é inerente à sua própria vontade, porque como dito acima, o preconceito nasce de tudo que nos forma, que nos direciona nessa vida. E podemos ter certeza, nunca deixará de existir o preconceito enquanto houver mais de um sujeito na terra. O que devemos fazer é aprender a lidar com nossos preconceitos e torná-los mais toleráveis.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PREFÁCIO DE "O REGRESSO"

Os elementos do universal


Margarete Edul Prado Lopes*

Passei a maior parte da minha vida, quero dizer a meninice, mocidade e parte da vida adulta, profundamente imersa nas vidas de indivíduos extraordinários. Sim, tive sarampo na 4ª série do ensino fundamental e, ao ficar quase um mês longe da escola, descobri Machado de Assis na estante da sala e li Dom Casmurro antes mesmo de me apaixonar pelas narrativas de Júlio Verne e Monteiro Lobato, cujas obras fui devorando pouco a pouco, depois de ler Machado. Portanto, Capitu povoava meus sonhos desde a mais tenra idade e era meu modelo de mulher. Entretanto, nos últimos vinte anos, tenho me dedicado a explorar autoras (es) novas (os) – é hábito meu valorizar o feminino plural antes do masculino plural, como forma de protesto há séculos de machismo – especialmente a escrita de mulheres no Acre, sobre as quais já publiquei dois livros e fiz delas o tema de minha tese de doutorado.

No entanto, não se pode ignorar por completo a escrita de autoria masculina e passar ao largo, pois esta vida é um emaranhado de relações de gênero, e homens e mulheres vivem imbricados. Foi então uma grata e edificante surpresa receber o convite de Sergio Santos para fazer este prefácio e abri uma exceção, pois geralmente só faço comentários e críticas literárias de livros de autoria feminina.

Não conheço a vida pessoal de Sergio Santos, nem sua família, sei que é um mineiro que tem alma de acreano e entende muito de Amazônia e sua cultura, crenças, costumes. Conheci o aluno brilhante que ele foi, quando fazia o Curso de Letras, como também foi nosso aluno no Mestrado. Conheço o excelente professor de Língua Portuguesa e Literatura que ele é, trabalhando conosco na Universidade Federal do Acre. Há tempos conheço o contista maravilhoso que tem sido Sergio Santos, com narrativas premiadas, em Rio Branco, pela Fundação Garibaldi Brasil. Desde os tempos de aluno de Letras e do Mestrado, ele já tinha o costume de me dar os seus contos para ler e corrigir. Gesto que muito me lisonjeava e que me dava muito prazer realizar, visto que ler é o maior dos meus vícios.

Foi então que neste fim de 2010, Sergio me surpreende grandemente ao me apresentar seu primeiro romance para prefaciar, pois já tinha garantido a publicação com a Lei de Incentivo a Cultura. Ao começar a ler, fui desconfiando que não era o primeiro romance dele, devido à maturidade da escrita e familiaridade com a ficção que ele demonstra, ao escrever com tanta habilidade sobre os intricados melindres do coração humano. Conversando com ele, soube que se trata do terceiro ou quarto romance, salvo engano, os outros inéditos aguardam publicação. E, conforme fui “devorando” as páginas, fui percebendo nitidamente que Sergio Santos veio para ficar, que ele é realmente talentoso, original, criativo, forte, denso, carismático e sua escrita ainda vai produzir surpresas maiores.

Logo nas primeiras páginas deste interessante e intrigante romance de Sergio Santos, dividido em livros, portanto, no Livro 1, que trata da história melancólica e pungente de Luís, lembrei do trecho de uma carta de Hélio Pellegrino para Fernando Sabino, autor do consagrado Encontro Marcado, dizendo:

O homem, quando é jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro, e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo.

Assim sentimos que são descritos os personagens deste romance, Luís tão introspectivo, homem amargurado e desiludido desde rapazinho, com o amor e com as mulheres. Luís sai de casa tentando ganhar o mundo, fugir da dor, esquecer a desilusão. Sua irmã Lorena, formada em Direito, também passa a existência tentando ganhar o mundo, ou a ilusão de ter superado os amores da juventude, mãe solteira valente e vitoriosa, que sabe tomar todas as decisões de sua vida. Mas ninguém escapa deste encontro com o Outro, estamos aqui nesta vida, constantemente nos encontrando com o Outro e, mais que tudo, nós temos que saber lidar com o Outro, conviver com o diferente e aceitar as limitações de cada um. O romance de Sergio Santos trata exatamente disto, do encontro com o Outro, assim mesmo com este “O” maiúsculo, que cada um de nós tem outra pessoa com a qual lidamos e somos o Outro do Outro.

Sergio sabe como ninguém sintetizar o pensamento de suas personagens, aliás, descrever a mente das pessoas é uma coisa muito sedutora, é penetrar no mundo alheio, pois cada ente abriga dentro de si os ingredientes fundamentais da vida. Suas personagens são seres humanos como qualquer um de nós, entidades que poderiam existir no mundo natural, têm determinadas aparências e experimentam certos sentimentos, desejos e necessidades. São pessoas que mantêm todo tipo de relações umas com as outras, relações de pais e filhos, entre irmãos, de amizade, relações de amores hetero e homossexuais – seres que se desejam, temem-se, procuram se comunicar e se frustram, sofrem, choram, quando tal comunicação não é eficaz.

O cenário do romance é o Acre, mas poderia ser em qualquer Estado do Brasil, uma vez que os elementos da história e suas criaturas são universais como sempre se exige da boa literatura, que permanece através dos tempos.

Vale ainda ressaltar que esta obra é uma novidade em romance aqui no Acre, pois a maioria gritante dos romances publicados em terras acreanas ocorrem na floresta, retratam seringais e a vida nos tempos gloriosos ou não do extrativismo. No entanto, o romance de Sergio Santos é uma exceção a esta regra, é uma narrativa urbana, as personagens circulam entre Rio Branco e Sena Madureira, os conflitos se passam na cidade. O filho mais velho de familiar nuclear burguesa bem resolvida aceita emprego no interior (Sena Madureira), para esquecer uma grande dor, e transcorrem muitos anos sem ter contato algum com sua família. Ele retorna para Rio Branco quando sua irmã Lorena telefona para lhe dizer que a mãe deles está muito doente e sem muito tempo de vida. A narrativa transita por cada personagem, que em seu tempo dominam a cena, mudando a cada livro de foco narrativo. Começando por Luís, prosseguindo pelas mentes de cada um dos seus irmãos, cada história é narrada do ponto de vista de quem protagoniza essa parte do enredo. Essa construção interessante de revezamento de foco narrativo é uma característica dos tempos pós-modernos, donde não temos personagens sem destaque, visto que cada um tem sua vez de protagonista.

Os livros que formam o romance formam um todo entre si e são independentes, podendo ser lidos em separado. Por fim, precisamos dizer que a relação dialética entre o romance e a leitora (o leitor) parece-nos perfeita e harmoniosa nesta obra. Nunca é demais afirmar que este engenhoso e bem delineado romance de estréia de Sergio Santos, que com certeza absoluta ainda mais nos brindar com muitos outros, poderá iniciar um novo horizonte de sentido para os estudos literários na Amazônia.

* Professora doutora do Curso de Letras da UFAC, membro da Academia Acreana de Letras, crítica literária e ensaísta.